Terça-feira, Março 28, 2006
Solidão
Nas noites de Inverno, enquanto fervia a sopa na lareira, tinha saudades do calor da sua loja, do zumbido do sol nas amendoeiras cheias de pó, do apito do comboio no sopor da sesta, como em Macondo tinha saudades da sopa de Inverno na lareira, dos pregões do vendedor do café e das cotovias fugazes da Primavera. Aturdido por duas nostalgias defrontadas como em dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido da realidade, até que acabou por recomendar a todos que saíssem de Macondo, que esquecessem quanto ele lhes ensinara sobre o mundo e o coração humano, que se estivessem nas tintas para Horácio, e que, fosse onde fosse que estivessem, recordassem sempre que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda a Primavera antiga era irrecuperável, e que o amor mais desatinado e persistente era, de todos os modos, uma verdade efémera.
De Cem Anos de Solidão, que finalmente terminei ontem, e que apesar de passagens belíssimas como esta acima, eu francamente não gostei. Desculpa aí Gabriel...
E o engraçado é que ainda hoje eu e as meninas falávamos exatamente sobre isso enquanto tomávamos o nosso 'café de Terça'.
Segunda-feira, Março 27, 2006
Folhas caídas
Quando estivemos em Berlim no começo do ano fomos visitar o
Museu Judeu. Infelizmente não tivemos muito tempo para explorar tudo, o que foi verdadeiramente uma pena já que a história judaica é tão interessante, e o museu é super interativo. Vale mesmo a pena visitar.
Mas uma coisa que eu achei impressionante foi uma exposição que estava localizada no Memorial do Vazio (
Memory Void). Antes mesmo de chegar lá você já é tomado por um ruído tão opressor que não sabe o que vai encontrar. Passando da parede, você dá de cara com mais de dez mil faces de ferro com as bocas abertas espalhadas pelo chão. A instalação se chama Folhas Caídas (
Fallen Leaves) e é do artista plástico israelita Menashe Kadishman.
Como eu disse, o museu é interativo e com essa instalação não é diferente já que o artista convida as pessoas a caminharem pelos rostos. Francamente, eu não consegui fazer isso. E tirar foto apenas seria deixar de lado o outro elemento que nos atinge ao ver essa peça. Por isso que eu fiz um vídeo dessa instalação e vou dividi-lo com vocês agora.
Crueldade
Há dois dias foi iniciada a caça as focas no Canadá.
Não há matança que não seja cruel, mas essa certamente entra no topo das listas de crueldade. Milhares de bebês são mortos pela sua pele e tudo com a permissão do governo candense.
A única coisa que podemos fazer estando assim a tantos quilometros de distancia é boicotar os produtos vindos do Canadá, entre eles o bacalhau, e assinar um abaixo-assinado pra pressionar o governo a banir a caça. Quem sabe ano que vem alguns bichinhos poderão ser salvos?
Sexta-feira, Março 24, 2006
Receita: Cocada de leite
E porque faz muito tempo que eu tou querendo postar as receitinhas que eu faço, lá vai a primeira!
2 x de coco fresco ralado
1 lata de leite condensado
2 x de açúcar
1 colher sopa de manteiga
Unte uma superfície qualquer com óleo (se for uma pedra mármore melhor, se não, vai numa fôrma de alumínio mesmo).
Mistura o coco, o leite e o açúcar. Leve ao fogo mexendo sempre até andar na panela. Retire do fogo e coloque a manteiga. Bata com uma colher de pau até açucarar (isso significa muitos minutos batendo: ótimo exercício para os braços, nomeadamente o músculo do 'tchau').
Despeje na superfície untada e deixe esfriar. Antes que fique completamente frio corte os quadradinhos.
Eu fiz e ficou muito boa: Mainha ficaria orgulhosa de mim!!
Quinta-feira, Março 23, 2006
Oh pátria amada, idolatrada, salve, salve!
Vocês viram aquela historia da empregada doméstica que está presa desde Novembro passado porque foi pega roubando um pacotinho de manteiga que vale uns R$ 3.00?
Ai vocês souberam também do tal General, ou sei lá o quê ele é, que parou um avião lotado que já estava na pista pra decolar, retirou um casal pra ele e a mulher entrar e depois de tanta petulância ainda escapou ileso?
E alguém mais já ta sabendo que dos 19 acusados de envolvimento com o escândalo do mensalão 11 já escaparam. Pois é, ta lá no blog do Fernando.
Ai, ai, esse é o país que eu não vejo a hora de voltar: País das oportunidades iguais e favorecimento zero...
24/03 Atualizando: A tal menina que roubou o potinho de manteiga foi liberada hoje. Veja aqui.
Um soco
na boca do estômago.
Quarta-feira, Março 22, 2006
Roy
Vi agora no UOL que uma exposição do Roy Lichtenstein vai estar no MAM - Rio de 21 de Marco a 21 de Maio. Gente, se alguém ai vai ter o privilégio de estar no Rio nesse período, vão sim porque é um baita programa.
Em Janeiro vi umas peças do Andy Warhol e imagino que a experiência com as do Roy (para os íntimos!) seja a mesma. Já agora, essa experiência é boa!
Ai vai ter gente que vai pensar 'ah, pra quê ver esse cara se isso não é arte?'. Bichim pense isso não. Tudo que foi feito pra ser contemplado é arte. Além do que, o próprio estilo dele é uma crítica à tradição.
Vou colocar aqui a tradução livre de uma citação dele, que você encontra lá no wikipedia:
'O que me interessa é pintar um tipo de anti-sensitividade que impregna a civilização moderna. Eu acho que a arte desde de Cézanne se tornou extremamente romântica e irreal, se alimentando da arte. Isso é utópico. Isso tem menos e menos a ver com o mundo. Parece um neo-Zen interno e tudo aquilo mais. A Arte Pop olha pra o mundo. Não parece uma pintura de alguma coisa, parece com a coisa em si'.
Ficou com vontade?
Seu Jorge: Changes
Sexta-feira, Março 17, 2006
Hoje é dia de São Patrício
As ruas estão cheias de gente indo pra cima e pra baixo, usando a cartola da Guinness - bastante conveniente para os 2 graus que ta fazendo. Mais parece uma véspera de Ano Novo, e olha que isso aqui nem é a Irlanda!
Entretanto eu estou me sentindo:
Pobre - A loja que eu trabalho está em liquidação e mesmo assim eu não posso comprar nadinha de nada. E pelo andar da carruagem, não poderei comprar nada descente pela próxima década seja lá onde eu estiver.
Burra - Eu absolutamente odeio estatística.
Cansada - Muito trabalho, muito estudo, muitos planos, pouco tempo.
Com frio - Há exatamente um mês tivemos dias de 10 graus. Nossa que felicidade! Pensei até que aquela história de 'inverno mais rigoroso em 50 anos' fosse mentira. Pois bem: há quatro semanas que a temperatura não passa muito dos 2 graus. Neve, chuva com neve (sleet), nevoeiro, neblina. CHEGA! Não agüento mais. Minha pele e meu humor precisam de sol e calor.
Com saudades - Nem é bom se demorar muito nesse tópico do jeito que eu tou...
Ou seja, tou péssima. Só o São Patrício mesmo pra espantar minhas cobras e urubus.
Quarta-feira, Março 15, 2006
Recomendo II
Outro filme daqueles sobre a intromissão dos outros nas nossas lembranças.
Será que um dia a gente chega lá?
Bem, se fosse pelos filmes os carros já estariam voando por ai...
Recomendo
Quinta-feira, Março 09, 2006
Casa Brasileira
A casa era uma casa brasileira, sim
Mangueiras no quintal e rosas no jardim
A sala com o cristo e a cristaleira
E sobre a geladeira da cozinha um pinguim
A casa era uma casa brasileira, sim
Um pouco portuguesa, um pouco pixaim
Toalhas lá da Ilha da Madeira
E atrás da porta arruda e uma figa de marfim
A casa era assim ou quase
A casa já não está mais lá
Está dentro de mim
Cantar me lembra o cheiro de jardim
A coisa é a coisa brasileira, sim
O jeito, a maneira, a identidade enfim
E a televisão, essa lareira
Queimando o dia inteiro a raiz que existe em mim
A casa era assim
Um pouco portuguesa e pixaim
Do meu querido Geraldinho Azevedo junto com Renato Rocha.
Agora vai dizer que na sua casa nao tem pelo menos um desses elementos? Ate na minha, aqui tao longe e em terras frias, mas com alminhas brasileiras habitando, tem a toalhinha (imitacao) da Ilha da Madeira!
Agora, o cheirinho do jardim de la, esse sim ficou e ficara pra sempre! Ate o dia que eu voltar e tiver as minhas roseiras no jardim.
Casa Brasileira: Geraldo Azevedo
Domingo, Março 05, 2006
Eu: a comerciaria
Nesse mês de Fevereiro que passou completei dois anos de carreira vendendo cortinas.
E é engraçado por vários motivos:
1. Passou muito rápido, nossa!
2. A idéia era só juntar uma grana pra pagar o meu mestrado e depois cair fora.
3. "...uma carreira vendendo cortinas". Soa engraçado, porém honroso!
4. É incrível como a gente vai aprendendo a ficar confortável em certos lugares.
E meu ponto é justamente esse: nossa como eu me acomodei! Isso tudo faz parte daquela velha historia do ano passado sobre ter que aprender a dizer não. Eu deveria ter dito não a esse emprego a cerca de uma atrás. Como eu não disse nada, acabei ficando outro ano. Meu deuso!
Daí você tira como tem gente que fica uma vida inteira fazendo um trabalho que não traz satisfação, mas que como já sabe tudo de trás pra frente, acaba ficando.
Fui ficando porque sei que vou sair de qualquer maneira. Afinal, nesses dias a gente ta voltando e por motivo maior vou cair fora. Mas fui ficando também porque apesar de tudo, as pessoas, principalmente minha gerente, são muito bacanas. Não é motivo, eu sei, mas tudo se justifica quando a gente ta confortável num cantinho.
Outra grande justificativa foi o fato de que como eu tenho que terminar um mestrado, mais casa, etc etc - aquilo que toda dona de casa ta cansada de saber - eu preferi ficar fazendo algo 'fácil'. Um trabalho daqueles que quando você bota o pé na rua, já esqueceu de onde saiu! Mas... pois é, sempre tem um 'mas'. Acho que eu poderia ter encontrado algo mais, digamos assim, intelectualmente motivador, e ao mesmo tempo esquecível ao pôr o pé na rua.
Enfim. Pra celebrar o tempo de emprego mais longo que já tive lá vai:
Contos de uma comerciaria: a Torre de Babel.
Tou eu lá na loja esses dias e vejo que tem uma mulher olhando os varais de cortina, assim com aquele ar de confusão. Vou lá e pergunto se posso ajudar. Ela vira pra mim e pergunta:
- French?
Ih... Lascou agora!
- Não, eu não falo francês, espanhol ajuda?
- Oui.
Eu francamente não sei como que a gente se entendeu: a mulher na Inglaterra, tentando se comunicar em francês e recebendo respostas em espanhol.
Moral da história: eu preciso retomar o meu francês urgentemente.